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domingo, 24 de abril de 2005

Sou uma parte de tudo aquilo que encontrei

No homem, o desenvolvimento da personalidade é contrastante, aleatório, incerto, e requer traumas, provas, riscos, sofrimentos. Os ritos de iniciação das sociedades arcaicas ritualizavam e «normalizavam» a passagem ao estado adulto através de provas do corpo e do espírito. Ora nós estamos actualmente em sociedades onde a desagregação da iniciação ritualizada colectiva cede lugar à iniciação individual aleatória. A partir, daí, a perturbação aleatória inscreve-se na lógica dum desenvolvimento que, por isso mesmo, se torna aleatório. Este é precisamente o sentido, édipo; pouco importa aqui, que se trate de uma síndrome antropológica ou limitada à nossa civilização: o que importa é que existe pelo menos uma civilização na qual a criança encontrará sob a forma de trauma; num certo estádio do seu desenvolvimento, o problema da transformação da sua relação com o pai ou a mãe; numas, a prova será o ordálio que autorizará o desabrochar sexual; noutras deixará um bloqueio duradouro; talvez mesmo, na maior parte, a crise edipiana seja simultaneamente ultrapassada e insuperável. Antecipei-me fornecendo aqui um exemplo demasiado humano.

Mas quis ilustrar a ideia que me parece essencial: quanto mais complexos são os seres, mais toleram, utilizam, necessitam, para o seu comportamento e desenvolvimento, dos acontecimentos não só aleatórios, mas perturbadores e agressivos. Estes desempenham o papel de «desafio» que ou traz a derrota ou desencadeia as mesmas realizações ou superações (cf. O Método I, p. 295).

Mas, ao mesmo tempo, estes mesmos seres complexos, mamíferos, primatas e sobretudo humanos, que requerem de algum modo a perturbação para a sua realização, têm, em contrapartida, uma necessidade cada vez maior de serem rodeados de calor afectivo, primeiro na infância (cuidados, atenções, caricias, abraços maternais), na sua juventude (a fraternidade dos jogos, a protecção dos adultos) e depois, na espécie homo, toda a vida (amor, amizade, ternura).
O risco e a luta desenvolvem a astúcia e a inteligência estratégica. Mas o verdadeiro desabrochar da inteligência e do ser humano apela para conjunção da incerteza do risco e da certeza do amor. Precisamos que o nosso ambiente nos traga agressão e afeição.
É portanto/simultaneamente nos seus caracteres aleatórios/agressivos e nos seus caracteres nutritivos/protectores que o ecossistema complexo constitui a escola do desenvolvimento da vida. Longe de libertar-se do ambiente (aqui mais natural e depois, como veremos no capitulo seguinte, social), o auto-desenvolvimento necessita cada vez mais dele. A nossa singularidade extrema está ligada à marca de acontecimentos exteriores tornados os nossos acontecimentos. Não se trata aqui, e hei-de voltar a isto mais longe (p. 107), de esquecer a determinação hereditária. Mas cada um pode dizer também como Ortega y Gasset:

"Sou uma parte de tudo aquilo que encontrei."
Morin, Edgar, O Método